Domingo, Maio 02, 2010

GPSed Track "Bosque da Barra"


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Domingo, Outubro 11, 2009

Chile e Bolívia - Atacama

Foram trinta dias entre Norte do Chile, Sudoeste da Bolívia e Sul do Peru, a beligerante tríplice fronteira que se envolveu numa das mais sangrentas guerras no fim século XIX, durou quatro anos e morreram mais de quinze mil pessoas. Ainda hoje, placas advertem sobre campos minados, remanescentes da Guerra do Pacífico. Nada que possa impedir os belos passeios e caminhadas pela região.


Saímos dia 30 de Junho de Porto Alegre, eu e Nita com destino a Santiago do Chile. Cinco dias conhecendo a bela e organizada Santiago e suas vizinhas, à beira do Pacífico, Valparaiso e Viña Del Mar. Dia cinco de Julho voamos de Santiago a Calama, já ao Norte do Chile. De lá seguimos por uma estrada asfaltada mais 150 kms até San Pedro de Atacama, cidade base para visitação do Deserto.

Chile - San Pedro de Atacama


Já no altiplano, assim que cruzamos a Cordilheira de Sal passando ao lado do Vale de La Muerte e Vale de La Luna avistamos, em frente, numa baixada a Vila de San Pedro, emoldurada ao fundo por uma sequência de vulcões que dominam a região fronteiriça com o Sul da Bolívia e o Norte da Argentina, destacando-se o indefectível Licancabur, um cone perfeito.


A vila é um pequeno povoado no meio do Deserto por onde passa o ribeirão San Pedro, com suas margens agritultadas e que da à vila um aspecto de oásis. Ocre é a cor predominante das suas casas que são construídas com adobe. 3000 habitantes convivem com o movimento frenético dos turistas que chegam e saem, espalhando-se por dezenas de pousadas, restaurantes e agências de turismo em um punhado de ruas tortuosas. Caracoles, a principal, é uma das poucas retas e fica próxima da Igreja e da praça central.


A imponente Cordilheira dos Andes só recebe a neve no verão, isso mesmo só no verão. Por que? Porque no inverno não há nuvens, que só chegam com o verão e aí os vulcões ficam tingidos de branco. O solo, estéril, mostra as cores de todos os minerais presentes e suas combinações, como o abundante sal, o cobre, o estanho, o lítio, o enxofre e tantos outros em matizes surreais.


Os desenhos naturais esculpidos pelo vento e o contraste das variadas cores com o céu azul, de um infinito de doer os olhos, são os componentes que fazem do Atacama não apenas o mais alto e mais árido do mundo, mas também o mais bonito. Aos pés dos vulcões nascem seus lagos que assumem cores impressionantes, resultado da combinação dos minerais carreados pelo degelo. Destaque para as Lagoas Altiplânicas: Miscanti e Miniques de rara beleza.


Na parte mais baixa, 80kms ao Sul de San Pedro está o Salar de Atacama, uma imensa planície de sal com 100km de comprimento por 80km de largura e 2300m de altitude, cercado por grandes planaltos com altitudes que chegam aos 4.000m. No meio do Salar estão alguns lagos, obviamente salgados, caprichosamente retocados por placas de gelo e flamingos a mariscar.

Madrugando às quatro e percorrendo 97 kms ao Norte, a 4.500 metros de altitude, com mais de uma dezena de vans lotadas de turistas e sob um rigoroso frio de menos 15, chega-se,ao nascer do sol, ao Gayser Del Tatio. Dezenas de chafarizes naturais que brotam do centro da terra em alturas que podem alcançar até 50 metros.

Essas águas jorram muito quentes e em contato com o ar muito frio criam as chamadas fumarolas. Os gaysers jogam freneticamente suas águas a grandes alturas, realmente impressiona ver aquela multidão de pessoas pequenininhas ao lado de chaminés gigantescas.

Travessia de San Pedro a Uyuni


Dia 10 de julho Nita voltou ao Brasil expulsa pelo frio atacamenho. Eu e mais uma penca de turistas nos enfiamos nas vans bolivianas para mais uma aventura, a travessia do Atacama até o Salar de Uyuni. Bordeando o Licancabur cruzamos a fronteira com a Bolívia e adentramos o altiplano. Deixamos para trás os vastos campos do Atacama e agora seguíamos por altitudes acima dos quatro mil metros com ventos de até 80 km/h e frio sempre abaixo de zero.


Nenhuma vila, nenhuma casa, nenhuma vida vegetal ou animal, exceção ao flamingo presente em todos os lagos. Na imensidão do altiplano perdemos nossas referências visuais. Vulcões distantes com seis mil metros parecem próximos e pequenos. Vendo passar, ao longe, uma Toyota parece um brinquedo movido a controle remoto. O chão de brita que se estende por todo o altiplano; os cerros, vulcões e lagos coloridos; as pedras esculpidas e desenhadas pelo vento, de alguma forma, já nos parecem íntimas, raramente lembramos do verde que abunda nossas matas. Cachoeira? Você não verá uma sequer.


Na primeira noite dormimos próximo à Laguna Colorada num abrigo construído especialmente para os turistas. Mesmo com cinco cobertores e enfiado num saco de dormir com uma pet de 2 litros com água quente não dormi bem, o frio de menos 23, a falta de ar nos 4.400 de altitude, o banheiro sujo sem papel e sem água para banho, foram decisivos para uma noite mal dormida.


Nada a lamentar, queria estar ali e sabia o custo dessa aventura que estava apenas começando, apreciar as Lagunas Verde, Blanca, Colorada, Honda, Cañapa, Hedionda, Charcota e tantas outras; ver de perto a Arbor de Piedra; de longe o Deserto de Dali e acompanhar a seqüência de cerros e vulcões coloridos não tem preço. Passaria outras noites mal dormidas na Laguna Colorada e na Villa Martin, nas bordas do Salar.

Bolívia - Salar de Uyuni




Madrugamos no último dia para ver o sol nascer dentro do Salar, nos penhascos da Ilha do Pescado com seus cactos gigantes. Uma única palavra, espetacular. Passamos o dia inteiro dentro do maior Salar do mundo, uma imensa planície de sal toda cercada de montanhas e que em certos ângulos só se vê a ínfima linha que divide o sal do céu. Atravessamos o Salar por uma das rotas por onde atravessam as Toyotas e fomos até o Hotel de Sal que fica literalmente dentro do Salar. Todo construído com blocos de sal cristalizado que são tão duros quanto a pedra, também utilizados na construção de casas, camas, mesas e até artesanatos.










Oito em cada dez turistas que chegam ao Atacama pretendem ir até a Bolívia. Ou simplesmente visitar o visinho, P.N. Eduardo Avaroa, ou se estender um pouco mais até o Salar de Uyuni. Se você está em carro próprio poderá cruzar esta insólita fronteira, entretanto carro alugado no Chile não passa. Veículo chileno só entra na Bolívia conduzido pelo proprietário, assim como veículo boliviano só entra no Chile conduzido pelo dono. Algumas agências estabelecidas em San Pedro são conhecidas como “Agência Boliviana”. São as únicas que podem seguir até a Bolívia. Então os bolivianos resolveram criar um cartel, são proprietários de toyotas chilenas que levam os turistas até a fronteira, que lá embarcam em toyotas bolivianas.







Durante a longa travessia do altiplano cruzávamos sempre com alguém já conhecido. E foi assim por toda viagem. Amiúde pude desfrutar da companhia do Mário (motorista e guia), do Felipe e Yuri (jovens brasileiros que estudam no ITA), do Chris, Kate e Clare (jovens galeses que estavam na estrada há quatro meses) e mais cinco estudantes franceses que estavam na outra Toyota da minha agência. Algumas vezes eu e os brasileiros falávamos e riamos em português provocando a curiosidade dos franceses e galeses; os franceses não deixavam por menos, e era a nossa vez de ficarmos curiosos. Na noite gelada da laguna Colorada várias agências se reuniram no mesmo galpão para jantar e dormir. Jantávamos em meio a uma animada conversa entabulando algumas palavras em francês. Surgiu-me a idéia de cantar a Marceillaise (quando estudávamos em Guimarães, eu e toda a petizada daquela distante cidade ao Norte do Maranhão, aprendemos a cantar o Hino Francês). Altissonante, incluindo alguns outros que estavam mais afastados, bisamos o Hino com direito a brinde no final. Naquele momento mal sabia que a Marseillaise iria salvar a minha pele nas profundezas do Vale Ravelo, antiga Trilha Inca.


Chegando ao nosso destino, na pequena, distante e feia cidade de Uyuni fomos rapidamente conhecer o Cemitério de Trens. Testemunho de uma História que a Bolívia não gostaria de lembrar. A disputa pelo poder nesta tríplice fronteira (Peru, Chile e Bolívia). Após a libertação a América Espanhola viveu um curto armistício e edificou grandes monumentos a seus libertadores Bolívar, Sucre, San Martin e O’Higgins.

Guerra do Pacífico (Notas históricas)

Em meados do século XIX a Europa estava com suas terras desgastadas para o semeio e a colheita minguava.

Teria sido a viagem de Darwin meramente científica? As freqüentes viagens dos navios ingleses pela costa do Peru resultaram no interesse pelo Guano (excrementos das aves marinhas, rico em fosfato, nitrogênio, amoníaco, ácidos e sais diversos). Em milhares de anos as aves nativas da costa do Pacífico depositaram nas ilhas e nas terras áridas do Atacama toneladas de Guano.

Nos chamados anos do Guano (1840 a 1880) o governo do Peru recebeu 750 milhões de libra da Companhia Gibbs & Sons em troca do monopólio, exploração e exportação de 11 milhões de toneladas do esterco para a Europa. Quarenta anos foram suficientes para esgotar a reserva do fertilizante natural e deixar um grande rastro de destruição, especialmente na Ilha Chincha.

Durante séculos a natureza depositou grãos de nitrato no deserto ao sul do Peru. Acabado o Guano os ingleses iniciaram a corrida pela exploração do Salitre (nitrato de potássio). Montanhas de Salitre eram transportadas para a Europa e a aristocracia peruana torrava o dinheiro na mesma proporção que exportava. Nessa época as cidades de Arica e Iquique pertenciam ao Peru e à Bolívia pertencia Antofagasta. O Chile não fazia fronteira com o Peru e sua última cidade ao Norte, fronteiriça à Bolívia, era Copiapo, na altura do paralelo 24 Sul. No tratado de 1866 ambos os países se comprometeram a repartir pela metade os impostos provenientes da exploração dos depósitos de guano descobertos e por descobrir no território compreendido entre os paralelos 23 e 25 de latitude Sul, bem como também os direitos de exportação percebidos sobre os minerais extraídos no mesmo território. Os ingleses sabendo que o fertilizante da Bolívia era melhor que o do Peru passaram a negociar diretamente com os chilenos através da Companhia Melbourne e Clark que recebeu, em 1868, uma concessão de 15 anos para a extração do salitre. Criaram a Antofagasta Nitrate & Railway Company, responsável pela exploração do transporte ferroviário e do Porto de Antofagasta. As jazidas minerais da Bolívia escorriam pela Ferrocarril do altiplano até o Porto de Antofagasta de onde seguiam para a Europa. Em 1874, julgando desigual a divisão de impostos, a Bolívia não reconheceu o tratado anterior e num novo tratado fez mais concessões: não gravar por 25 anos as propriedades chilenas. Ingleses e chilenos incrementavam cada vez mais os seus negócios em Antofagasta em detrimento dos interesses bolivianos. Até que, à revelia do tratado anterior, no dia 11/11/1878, a Assembléia Constituinte e o Presidente boliviano Hilarión Daza Grozolei instituíram imposto sobre todo salitre retirado de Antofagasta. O Chile, reclamando direito sobre o imposto, ameaçou declarar nulos todos os tratados anteriores.

Em 11 de Fevereiro de 1879 o presidente Aníbal Pinto do Chile declarou guerra à Bolívia. O Peru, fiel a um acordo de aliança com a Bolívia se engajou na guerra prolongando-a por mais de quatro anos. Em 1884 a Bolívia assinou um tratado de paz dando total controle da costa do Pacífico ao Chile. O Chile continuou ocupando Arica e Tacna, até que em 1929, sob a mediação do presidente estadunidense Herbert Hoover o Perú recebeu de volta Tacna e mais uma indenização de seis milhões de dólares. A Bolívia perdeu Antofagasta, o Salitre, seu porto e o acesso ao mar. Em 1902 a Bolívia perdeu o Acre para o Brasil, numa guerra em disputa pelo látex. Em 1935 perdeu o Gran Chaco para o Paraguai, numa guerra em disputa pelo petróleo. Rica em recursos naturais a Bolívia nacionalizou suas reservas no artigo 342 da Nova Constituição que determina: “é dever do Estado e da população conservar, proteger e aproveitar de maneira sustentável os recursos naturais, assim como manter o equilíbrio do meio ambiente”. Também consta da Nova Constituição, como objetivo nacional, a recuperação do acesso ao mar.

Bolívia - Potosi


Nessa mesma tarde, após conhecer o cemitério de trens, segui para Potosi acompanhado somente pelos amigos de Gales, os demais seguiram outros destinos. Zeloso, adverti meus amigos galeses para que entrássemos no ônibus somente após fecharem os bagageiros, já que embarcávamos no meio da rua em meio a um tumulto. Com os bilhetes na mão embarcamos e para nossa surpresa o ônibus estava lotado de passageiros sentados e em pé. Levantei a voz por cima da algazarra dizendo que tinha 64 anos e que não viajaria em pé. Riram do meu protesto e da minha idade o que fez bem ao meu ego. Perguntaram de onde era. Brasileiro, respondi. E falei mais algo como país visinho e amigo onde seus presidentes defendiam a liberdade de seus povos para que lutassem por seus direitos.

Ganhei a simpatia dos ”com bilhete” e lógico a antipatia dos ”sem bilhete”. Cheio de moral obriguei o motorista a parar o veículo que já estava se afastando da cidade. Pararam ao lado de um prédio de onde surgiu uma senhora com cara de sargento. Disseram que estávamos na Oficina da empresa e que a Secretária iria resolver o caso, logo consegui três lugares. Sentamos eu e a namorada do Chris na frente e a Clare lá atrás. Coitado do Chris, desceu dos seus 1,90m para meros 1,60m, a altura do teto. Cansado, o Chris sentou a meu lado e a namorada se esticou por sobre nós. Assim dormimos até as duas da madrugada quando chegamos a Potosi.

Potosi tem uma história equivalente a Ouro Preto no Brasil. O Cerro Rico de Potosi não é apenas o símbolo da cidade, mas o símbolo da época em que as metrópoles européias lastreavam suas reservas com metais preciosos. Época em que a Espanha retribuía os favores da Inglaterra com o ouro e a prata retirados de Potosi, que seguiam direto para Londres. Potosi foi o maior complexo industrial do mundo no século XVI e entre os séculos XVI e XVII era uma das maiores cidades do mundo, maior que Paris e New York. Parece um exagero, mas na época da inconfidência mineira, Ouro Preto (a então Vila Rica) era a maior cidade das Américas.

Fui conhecer o Mercado dos mineiros, o Cerro Rico, as Minas de Potossi. O mercado abastece os mineiros antes de subir às minas com bananas de dinamite, estopim, folha de coca, catalisador da coca, álcool de 90 graus (para beber), cigarro e outros apetrechos necessários para furar a rocha e suportar o peso da labuta. Consta que chegavam a mais de 2500 entradas de minas, hoje são pouco mais de 30 de onde se extrai o estanho e o turismo.

Prata, não há mais, foi totalmente extraída ao longo de quase três séculos. Entre subidas e descidas caminhamos mais de quatro kms dentro da mina, um verdadeiro queijo suíço onde os mineiros convivem com os tiros de dinamite, o estrépito enlouquecedor das perfuradoras gigantes, o ar denso e insalubre dos metais e a presença de turistas curiosos.

Bolívia - Sucre


Poucos dias depois, já em Sucre, recebi um email do Zico que falava sobre o livro do Eduardo Galeano, “Veias Abertas da América Latina”, que eu ainda não havia lido. O título do livro tinha tudo a ver com as entranhas das Minas do Cerro Rico. E fui dormir pensando em como teria o autor chegado a esse nome e me culpando por não ter lido antes da viagem.

Neste momento estou degustando, como um bom vinho, as Veias Abertas da América Latina e voltando no tempo. No tempo em que Potosi era a capital do mundo, no tempo em que Galeano percorreu os subterrâneos da nossa história, no tempo em que estive por lá.

Sucre, capital constitucional da Bolívia e sede da Corte Suprema da Justiça. O palácio do governo departamental é de longe mais imponente e bonito que o palácio do governo federal em La Paz. Declarada Patrimônio da Humanidade desde 1991, Sucre conserva um vasto equipamento arquitetônico dos séculos XVIII e XIX.

Aqui as bonitas torres das igrejas e conventos se destacam e com alguns trocados se pode subir até o mirador para apreciar a cidade. Assim como em Potosi, Sucre exibe vários edifícios com sacadas e balcões em madeira. Os prédios antigos abrigam faculdades de Medicina e Direito e é aqui que os brasileiros vêm estudar por míseros quinhentos dólares anuais.

Numa caminhada de poucas quadras chega-se a Recoleta, o bairro alto da cidade onde está o Monastério Franciscano e sua Igreja e de lá é possível avistar toda a cidade, o Cemitério, os bairros afastados e as montanhas que cercam a cidade.







Seis dias depois de cantar a Marceillaise estava num trekking, numa trilha Pré-Colombiana, por trás das montanhas que cercam Sucre. Por incríveis 60 reais eu e meus três amigos galeses alugamos um táxi que nos levou até o alto da montanha, na Capela de Chataquila. A partir dali mergulhamos nas profundezas do vale do Rio Ravelo, descendo cerca de mil metros por uma trilha de pedras até Chaunaca.

Já era fim de tarde e não tínhamos mais energia para subir os mil metros naquela altitude, pretendíamos pegar um caminhão que sobe de hora em hora até a Capela, mas não havia mais caminhão. Não tínhamos mais água, comida, nem roupa adequada para passar a noite naquele vale gelado. E mais, nosso taxista estava nos esperando lá em cima até as seis horas. Resolvemos voltar caminhando, mas a chance de alcançar o táxi era mínima.

Do nada um ronco de motor nos chamou a atenção, corremos e alcançamos uma van que transportava uns turistas. O motorista abriu o vidro e disse que não podia ajudar, tratava-se de um frete particular. Quando percebi que os turistas eram franceses, cantei o Hino. Eles lembraram de mim e do hino na Laguna Colorada. Fui acolhido pelos franceses que me deixaram na Capela. Os galeses foram resgatados e voltamos para Sucre.

Sábado, Outubro 10, 2009

Bolívia - La Paz

Ainda estava na companhia dos galeses quando segui para La Paz em mais uma viagem noturna, desta vez num confortável buscama. Quando a madrugada chegou já estávamos em El Alto, a enorme favela que sobe as encostas de La Paz e se estende pelo altiplano. Os paceños de classe média costumam dizer que El Alto é uma outra cidade, não pertence a La Paz e que devemos ter cuidado ao andar por lá. Em 1898 La Paz ganhou status de capital, quando passou a abrigar a administração federal após o declínio econômico de Potosi.
Fundada em 1548, em pleno altiplano, quando ainda pertencia ao Peru. A descoberta do ouro no Rio Choqueyapu trouxe a cidade para dentro do Vale.
É a capital mais alta da América do Sul com seus 3.640 metros de altitude é uma cidade agitada, opressiva e um tanto assustadora. Mas ao mesmo tempo exerce grande fascínio por sua riqueza cultural e a grande variedade de atividades ao ar livre no seu entorno.
Caminhar por suas ladeiras, pela Praça Murilo e Rua das Bruxas; apreciar o cotidiano da cidade onde as pessoas convivem com o antigo e o moderno; visitar o sítio arqueológico de Tiwanaco, o Lago Titicaca, a Cordilheira Real, o Vale da Lua; ou mesmo fazer o down hill de bicicleta de La Cumbre a Coroico; são alguns dos excelentes passeios que a cidade oferece. Um desafio para ficar além do previsto. E foi o que fiz.
Num dos dias segui cedo para Copacabana às margens do Titicaca e de lá segui de barco até a Ilha do Sol. Na volta o tempo virou e a Cordilheira até então visível foi coberta por uma espessa nuvem. O vento forte forçou nossa rota para uma margem distante e só fomos resgatados à noite. Pegamos uma forte chuva na saída do Titicaca que aos poucos foi se transformando em nevasca à medida que nos aproximávamos de La Paz. Em El Alto, já eram quase meia noite, as crianças brincavam nas calçadas se lambuzando na neve. As poucas árvores de dentro do vale pareciam enfeitadas para o Natal.
No dia seguinte toda a Cordilheira estava branquinha. E foi nesse clima, já desgarrado dos meus amigos galeses que segui em companhia de novos amigos aventureiros até La Cumbre. Aqui é o divisor de águas da Cordilheira dos Andes, a 4700 metros acima do nível do mar. Embora com sol o frio era cortante e estava aparamentado para baixas temperaturas. Eram quatro peles e mais o equipamento fornecido pela agência de Moutain Bike. Subimos nas bikes e em quatro horas descemos até Coroico, na altitude de 1200 metros. Todo o percurso foi realizado na famosa estrada da Morte em 4 horas, onde passamos por lugares cinematográficos.
Fizemos cinco paradas breves para lanche, fotos e aliviar as pesadas roupas de frio, de modo tal que ao nos aproximarmos de Coroico, já em plena bacia amazônica, com suas árvores, cachoeiras e calor tropical, usava uma simples camiseta. Dois mundos distintos e tão próximos separados por apenas 60 kms de distância e a absurda altura de 3.500 metros, o altiplano gelado coberto de neve e os verdes vales da quente Amazônia. Só a título de comparação, o ponto mais alto do Brasil é o Pico da Neblina com 3.014 metros.
Estudos arqueológicos apontam o surgimento da cultura Tiwanaco por volta de mil e quinhentos anos antes de Cristo e que seriam descendentes diretos dos Homens Pré-cerâmicos. Ano passado quando estive no Norte do Peru, visitei um sitio histórico conhecido com Chavin, distante de Tiwanaco, em linha reta, mais de mil quilômetros. A velha mania da comparação me levou a pensar que ambas as civilizações pertenciam ao mesmo ramo cultural, muralhas e portais de pedras gigantes, monolitos, cabeças claves, cerâmicas e ferramentas são muito parecido.
Em Tiwanaco há um museu repleto de objetos (embora os bolivianos afirmem que o melhor está nos museus espanhóis) e um quadro cronológico comparativo. Ambas deixaram seus traços culturais na mesma época. Surgiram, não se sabe ao certo de onde e desapareceram com o surgimento dos Incas, que até hoje não se sabe de onde vieram. Hoje alguns estudos sobre as informações astrológicas da Porta do Sol apontam para a possibilidade de um porto em Tiwanaku (embora esteja a quase 4 mil metros sobre o nível do mar) e que foi habitada desde 17 mil anos antes de Cristo. Há ainda alguns estudiosos que cogitam a possibilidade de Tiwanaku ter sido a Atlântida descrita por Platão.
Alguém é capaz de imaginar que exista no mundo uma pista de ski na neve que funcione no verão? Já existiu, mas o efeito estufa acabou com essa festa. A 50 kms de La Paz, em plena Cordilheira Real, o Pico de Chacaltaia ainda guarda os resquícios do passado com suas torres, cabos e teleféricos abandonados. Hoje Chacaltaia é uma das atrações turísticas aonde se chega de van aos 5300 metros e em mais uma caminhada de 300 metros é possível ver grande parte da Cordilheira Real, com seus picos mais altos cobertos de neve.

Bolívia - Parque Nacional Sajama


Antes de sair de La Paz liguei pra casa traçando o próximo azimute, já que ficaria longe de qualquer meio de comunicação por alguns dias. Quando disse que estava seguindo para Sajama, a Mônica perguntou se eu era louco, pois tinha visto na internet que há um ano atrás um brasileiro tinha sumido lá e que jamais foi encontrado. Não estava mesmo querendo ir a Sajama, passaria direto e ficaria em Lauca no Chile, mas resolvi mudar os planos em La Paz.
Ano passado estive em Huaraz para conhecer Huascarán o pico mais alto do Peru (6768m.), desta vez queria conhecer o Nevado Sajama, o mais alto da Bolívia com seus 6.542 metros. Saltei um pouco antes de Oruro no meio da estrada e em pouco tempo vi uma van com uma placa escrito: Sajama. Muita sorte, o Dono da van vem com a esposa uma vez por semana até Oruro fazer compras e trazer ou levar o filho que estuda psicologia na Universidade. Seguimos pelos vastos campos de altitude tendo o nevado à nossa frente como se fosse uma bússola, ele no volante, ela enrolando a lã de alpaca no fuso e eu disparando a câmera cada vez que o Sajama surgia numa curva.
Antes de Tambo Quemado pegamos a vicinal e seguimos para Sajama. A vila de Sajama tem um pouco mais que 30 casas e fica aos pés do Cerro. Na entrada há um posto de controle do Parque Nacional e a vila mais parece uma cidade fantasma, nenhuma pessoa na rua e todas as casas fechadas devido ao vento frio e as tempestades de areia. Já na vila o dono da van me faz a proposta de ficar à minha disposição e me levar aos gaysers, às águas termais e me deixar na fronteira, em Tambo Quemado por 145 bolivianos, ou seja, 40 reais. No primeiro dia subi o primeiro contraforte do Sajama e só desci quando os raios solares tingiram o Cerro de vermelho.
No outro dia fui aos gaysers e antes de seguir para a fronteira um relaxante banho nas termas. Meu guia me levou nas termas mais afastada, no que seria o início da formação de um manancial. Segundo ele, ali não pagaríamos a taxa de ingresso. Um lugar especial, pois estávamos à montante de todas as outras termais. Lá estava uma jovem índia lavando roupa e pensei ser este o verdadeiro motivo do guia ter vindo tão longe.
Por cerca de uma hora mergulhamos nas termais e no assunto sobre o sumiço do jovem brasileiro. Olhei para o Nevado Sajama a nossa frente e perguntei se ele havia sumido ao escalar o Cerro. Disseram que até hoje não há uma explicação para o caso, pois sua mochila foi encontrada ao lado de uma das termas com tudo dentro, inclusive dinheiro e documentos. O irmão do rapaz esteve por mais de um mês junto com as autoridades bolivianas fazendo buscas e nada.
A vila não tem hotel nem restaurante, os moradores improvisam alguns alojamentos e há uma senhora que vende um típico PF com carne de alpaca. Tem uma vista privilegiada, além do Nevado Sajama os dois vulcões que ficam na fronteira com o Chile (Parinacota e Pomerape) ficam muito próximos.
No meio da tarde segui para Tambo Quemado, a fronteira com o Norte do Chile, principal ligação da Bolívia com o oceano Pacífico. As quatro da tarde tomei um ônibus para Arica. A imigração chilena é dentro do Parque Nacional Lauca às margens do Lago Chungará, uma verdadeira pintura com os vulcões refletindo no espelho d’água. Ali mesmo, com um vento gelado, inundei a alma de tanta beleza e decidi que seguiria até Arica e depois Iquique. Lauca e Parinacota ficariam para uma outra oportunidade, mereciam mais que uma breve passagem.

Chile - Iquique

Hoje Arica é a cidade mais ao Norte do Chile e tem um intenso movimento de viajantes nas suas duas rodoviárias vizinhas. Da rodoviária seguem também os coiotes em táxis piratas até Tacna no Peru. No dia seguinte fui a Tacna conhecer esta cidade que foi alvo de disputa na Guerra do Pacífico. Logo segui em mais uma viagem noturna para Iquique. Na estrada, os restos do que foi a cobiça da Inglaterra, o sonho de progresso do Chile, as salitreiras fantasmas de Humberstone e Santa Laura com seus esqueletos de ferro.
Iquique, espremida entre o Pacífico e uma imensa duna de mais de 500 metros de altura, hoje se orgulha de sua Zona Franca e de suas belas praias, onde os chilenos endinheirados passam suas férias fugindo do frio intenso do sul e gastando o excedente salarial com as quinquilharias vindas da China.
Guarda ainda um rico patrimônio histórico alem das salitreiras abandonadas. Museus, construcões em estilos que vão do mourisco ao colonial, onde se destaca o pinho de Riga; um belo teatro; várias escolas, dentre elas uma escola inglesa; e esculturas em sal do artista Herman Puelma, testemunhos de um passado faustoso patrocinado pelos dividendos da exploração do salitre.

Ivan Goulart Braga

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