GPSed Track "Bosque da Barra"
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Foram trinta dias entre Norte do Chile, Sudoeste da Bolívia e Sul do Peru, a beligerante tríplice fronteira que se envolveu numa das mais sangrentas guerras no fim século XIX, durou quatro anos e morreram mais de quinze mil pessoas. Ainda hoje, placas advertem sobre campos minados, remanescentes da Guerra do Pacífico. Nada que possa impedir os belos passeios e caminhadas pela região.

Já no altiplano, assim que cruzamos a Cordilheira de Sal passando ao lado do Vale de La Muerte e Vale de La Luna avistamos, em frente, numa baixada a Vila de San Pedro, emoldurada ao fundo por uma sequência de vulcões que dominam a região fronteiriça com o Sul da Bolívia e o Norte da Argentina, destacando-se o indefectível Licancabur, um cone perfeito.
A vila é um pequeno povoado no meio do Deserto por onde passa o ribeirão San Pedro, com suas margens agritultadas e que da à vila um aspecto de oásis. Ocre é a cor predominante das suas casas que são construídas com adobe. 3000 habitantes convivem com o movimento frenético dos turistas que chegam e saem, espalhando-se por dezenas de pousadas, restaurantes e agências de turismo em um punhado de ruas tortuosas. Caracoles, a principal, é uma das poucas retas e fica próxima da Igreja e da praça central.
A imponente Cordilheira dos Andes só recebe a neve no verão, isso mesmo só no verão. Por que? Porque no inverno não há nuvens, que só chegam com o verão e aí os vulcões ficam tingidos de branco. O solo, estéril, mostra as cores de todos os minerais presentes e suas combinações, como o abundante sal, o cobre, o estanho, o lítio, o enxofre e tantos outros em matizes surreais.

Os desenhos naturais esculpidos pelo vento e o contraste das variadas cores com o céu azul, de um infinito de doer os olhos, são os componentes que fazem do Atacama não apenas o mais alto e mais árido do mundo, mas também o mais bonito. Aos pés dos vulcões nascem seus lagos que assumem cores impressionantes, resultado da combinação dos minerais carreados pelo degelo. Destaque para as Lagoas Altiplânicas: Miscanti e Miniques de rara beleza.

Dia 10 de julho Nita voltou ao Brasil expulsa pelo frio atacamenho. Eu e mais uma penca de turistas nos enfiamos nas vans bolivianas para mais uma aventura, a travessia do Atacama até o Salar de Uyuni. Bordeando o Licancabur cruzamos a fronteira com a Bolívia e adentramos o altiplano. Deixamos para trás os vastos campos do Atacama e agora seguíamos por altitudes acima dos quatro mil metros com ventos de até 80 km/h e frio sempre abaixo de zero.
Nenhuma vila, nenhuma casa, nenhuma vida vegetal ou animal, exceção ao flamingo presente em todos os lagos. Na imensidão do altiplano perdemos nossas referências visuais. Vulcões distantes com seis mil metros parecem próximos e pequenos. Vendo passar, ao longe, uma Toyota parece um brinquedo movido a controle remoto. O chão de brita que se estende por todo o altiplano; os cerros, vulcões e lagos coloridos; as pedras esculpidas e desenhadas pelo vento, de alguma forma, já nos parecem íntimas, raramente lembramos do verde que abunda nossas matas. Cachoeira? Você não verá uma sequer.
Na primeira noite dormimos próximo à Laguna Colorada num abrigo construído especialmente para os turistas. Mesmo com cinco cobertores e enfiado num saco de dormir com uma pet de 2 litros com água quente não dormi bem, o frio de menos 23, a falta de ar nos 4.400 de altitude, o banheiro sujo sem papel e sem água para banho, foram decisivos para uma noite mal dormida.

Madrugamos no último dia para ver o sol nascer dentro do Salar, nos penhascos da Ilha do Pescado com seus cactos gigantes. Uma única palavra, espetacular. Passamos o dia inteiro dentro do maior Salar do mundo, uma imensa planície de sal toda cercada de montanhas e que em certos ângulos só se vê a ínfima linha que divide o sal do céu. Atravessamos o Salar por uma das rotas por onde atravessam as Toyotas e fomos até o Hotel de Sal que fica literalmente dentro do Salar. Todo construído com blocos de sal cristalizado que são tão duros quanto a pedra, também utilizados na construção de casas, camas, mesas e até artesanatos.
Oito em cada dez turistas que chegam ao Atacama pretendem ir até a Bolívia. Ou simplesmente visitar o visinho, P.N. Eduardo Avaroa, ou se estender um pouco mais até o Salar de Uyuni. Se você está em carro próprio poderá cruzar esta insólita fronteira, entretanto carro alugado no Chile não passa. Veículo chileno só entra na Bolívia conduzido pelo proprietário, assim como veículo boliviano só entra no Chile conduzido pelo dono. Algumas agências estabelecidas em San Pedro são conhecidas como “Agência Boliviana”. São as únicas que podem seguir até a Bolívia. Então os bolivianos resolveram criar um cartel, são proprietários de toyotas chilenas que levam os turistas até a fronteira, que lá embarcam em toyotas bolivianas.
Durante a longa travessia do altiplano cruzávamos sempre com alguém já conhecido. E foi assim por toda viagem. Amiúde pude desfrutar da companhia do Mário (motorista e guia), do Felipe e Yuri (jovens brasileiros que estudam no ITA), do Chris, Kate e Clare (jovens galeses que estavam na estrada há quatro meses) e mais cinco estudantes franceses que estavam na outra Toyota da minha agência. Algumas vezes eu e os brasileiros falávamos e riamos em português provocando a curiosidade dos franceses e galeses; os franceses não deixavam por menos, e era a nossa vez de ficarmos curiosos. Na noite gelada da laguna Colorada várias agências se reuniram no mesmo galpão para jantar e dormir. Jantávamos em meio a uma animada conversa entabulando algumas palavras em francês. Surgiu-me a idéia de cantar a Marceillaise (quando estudávamos em Guimarães, eu e toda a petizada daquela distante cidade ao Norte do Maranhão, aprendemos a cantar o Hino Francês). Altissonante, incluindo alguns outros que estavam mais afastados, bisamos o Hino com direito a brinde no final. Naquele momento mal sabia que a Marseillaise iria salvar a minha pele nas profundezas do Vale Ravelo, antiga Trilha Inca.
Em meados do século XIX a Europa estava com suas terras desgastadas para o semeio e a colheita minguava.
Teria sido a viagem de Darwin meramente científica? As freqüentes viagens dos navios ingleses pela costa do Peru resultaram no interesse pelo Guano (excrementos das aves marinhas, rico em fosfato, nitrogênio, amoníaco, ácidos e sais diversos). Em milhares de anos as aves nativas da costa do Pacífico depositaram nas ilhas e nas terras áridas do Atacama toneladas de Guano.
Nos chamados anos do Guano (1840 a 1880) o governo do Peru recebeu 750 milhões de libra da Companhia Gibbs & Sons em troca do monopólio, exploração e exportação de 11 milhões de toneladas do esterco para a Europa. Quarenta anos foram suficientes para esgotar a reserva do fertilizante natural e deixar um grande rastro de destruição, especialmente na Ilha Chincha.
Durante séculos a natureza depositou grãos de nitrato no deserto ao sul do Peru. Acabado o Guano os ingleses iniciaram a corrida pela exploração do Salitre (nitrato de potássio). Montanhas de Salitre eram transportadas para a Europa e a aristocracia peruana torrava o dinheiro na mesma proporção que exportava. Nessa época as cidades de Arica e Iquique pertenciam ao Peru e à Bolívia pertencia Antofagasta. O Chile não fazia fronteira com o Peru e sua última cidade ao Norte, fronteiriça à Bolívia, era Copiapo, na altura do paralelo 24 Sul. No tratado de 1866 ambos os países se comprometeram a repartir pela metade os impostos provenientes da exploração dos depósitos de guano descobertos e por descobrir no território compreendido entre os paralelos 23 e 25 de latitude Sul, bem como também os direitos de exportação percebidos sobre os minerais extraídos no mesmo território. Os ingleses sabendo que o fertilizante da Bolívia era melhor que o do Peru passaram a negociar diretamente com os chilenos através da Companhia Melbourne e Clark que recebeu, em 1868, uma concessão de 15 anos para a extração do salitre. Criaram a Antofagasta Nitrate & Railway Company, responsável pela exploração do transporte ferroviário e do Porto de Antofagasta. As jazidas minerais da Bolívia escorriam pela Ferrocarril do altiplano até o Porto de Antofagasta de onde seguiam para a Europa. Em 1874, julgando desigual a divisão de impostos, a Bolívia não reconheceu o tratado anterior e num novo tratado fez mais concessões: não gravar por 25 anos as propriedades chilenas. Ingleses e chilenos incrementavam cada vez mais os seus negócios em Antofagasta em detrimento dos interesses bolivianos. Até que, à revelia do tratado anterior, no dia 11/11/1878, a Assembléia Constituinte e o Presidente boliviano Hilarión Daza Grozolei instituíram imposto sobre todo salitre retirado de Antofagasta. O Chile, reclamando direito sobre o imposto, ameaçou declarar nulos todos os tratados anteriores.

Ganhei a simpatia dos ”com bilhete” e lógico a antipatia dos ”sem bilhete”. Cheio de moral obriguei o motorista a parar o veículo que já estava se afastando da cidade. Pararam ao lado de um prédio de onde surgiu uma senhora com cara de sargento. Disseram que estávamos na Oficina da empresa e que a Secretária iria resolver o caso, logo consegui três lugares. Sentamos eu e a namorada do Chris na frente e a Clare lá atrás. Coitado do Chris, desceu dos seus 1,90m para meros 1,60m, a altura do teto. Cansado, o Chris sentou a meu lado e a namorada se esticou por sobre nós. Assim dormimos até as duas da madrugada quando chegamos a Potosi.
Potosi tem uma história equivalente a Ouro Preto no Brasil. O Cerro Rico de Potosi não é apenas o símbolo da cidade, mas o símbolo da época em que as metrópoles européias lastreavam suas reservas com metais preciosos. Época em que a Espanha retribuía os favores da Inglaterra com o ouro e a prata retirados de Potosi, que seguiam direto para Londres. Potosi foi o maior complexo industrial do mundo no século XVI e entre os séculos XVI e XVII era uma das maiores cidades do mundo, maior que Paris e New York. Parece um exagero, mas na época da inconfidência mineira, Ouro Preto (a então Vila Rica) era a maior cidade das Américas.
Fui conhecer o Mercado dos mineiros, o Cerro Rico, as Minas de Potossi. O mercado abastece os mineiros antes de subir às minas com bananas de dinamite, estopim, folha de coca, catalisador da coca, álcool de 90 graus (para beber), cigarro e outros apetrechos necessários para furar a rocha e suportar o peso da labuta. Consta que chegavam a mais de 2500 entradas de minas, hoje são pouco mais de 30 de onde se extrai o estanho e o turismo.

Neste momento estou degustando, como um bom vinho, as Veias Abertas da América Latina e voltando no tempo. No tempo em que Potosi era a capital do mundo, no tempo em que Galeano percorreu os subterrâneos da nossa história, no tempo em que estive por lá.
Sucre, capital constitucional da Bolívia e sede da Corte Suprema da Justiça. O palácio do governo departamental é de longe mais imponente e bonito que o palácio do governo federal em La Paz. Declarada Patrimônio da Humanidade desde 1991, Sucre conserva um vasto equipamento arquitetônico dos séculos XVIII e XIX.
Aqui as bonitas torres das igrejas e conventos se destacam e com alguns trocados se pode subir até o mirador para apreciar a cidade. Assim como em Potosi, Sucre exibe vários edifícios com sacadas e balcões em madeira. Os prédios antigos abrigam faculdades de Medicina e Direito e é aqui que os brasileiros vêm estudar por míseros quinhentos dólares anuais.
Seis dias depois de cantar a Marceillaise estava num trekking, numa trilha Pré-Colombiana, por trás das montanhas que cercam Sucre. Por incríveis 60 reais eu e meus três amigos galeses alugamos um táxi que nos levou até o alto da montanha, na Capela de Chataquila. A partir dali mergulhamos nas profundezas do vale do Rio Ravelo, descendo cerca de mil metros por uma trilha de pedras até Chaunaca.
Já era fim de tarde e não tínhamos mais energia para subir os mil metros naquela altitude, pretendíamos pegar um caminhão que sobe de hora em hora até a Capela, mas não havia mais caminhão. Não tínhamos mais água, comida, nem roupa adequada para passar a noite naquele vale gelado. E mais, nosso taxista estava nos esperando lá em cima até as seis horas. Resolvemos voltar caminhando, mas a chance de alcançar o táxi era mínima.
Do nada um ronco de motor nos chamou a atenção, corremos e alcançamos uma van que transportava uns turistas. O motorista abriu o vidro e disse que não podia ajudar, tratava-se de um frete particular. Quando percebi que os turistas eram franceses, cantei o Hino. Eles lembraram de mim e do hino na Laguna Colorada. Fui acolhido pelos franceses que me deixaram na Capela. Os galeses foram resgatados e voltamos para Sucre.













Hoje Arica é a cidade mais ao Norte do Chile e tem um intenso movimento de viajantes nas suas duas rodoviárias vizinhas. Da rodoviária seguem também os coiotes em táxis piratas até Tacna no Peru. No dia seguinte fui a Tacna conhecer esta cidade que foi alvo de disputa na Guerra do Pacífico. Logo segui em mais uma viagem noturna para Iquique. Na estrada, os restos do que foi a cobiça da Inglaterra, o sonho de progresso do Chile, as salitreiras fantasmas de Humberstone e Santa Laura com seus esqueletos de ferro.
Iquique, espremida entre o Pacífico e uma imensa duna de mais de 500 metros de altura, hoje se orgulha de sua Zona Franca e de suas belas praias, onde os chilenos endinheirados passam suas férias fugindo do frio intenso do sul e gastando o excedente salarial com as quinquilharias vindas da China.
Guarda ainda um rico patrimônio histórico alem das salitreiras abandonadas. Museus, construcões em estilos que vão do mourisco ao colonial, onde se destaca o pinho de Riga; um belo teatro; várias escolas, dentre elas uma escola inglesa; e esculturas em sal do artista Herman Puelma, testemunhos de um passado faustoso patrocinado pelos dividendos da exploração do salitre.